Meninas protegidas se tornam mulheres livres



Nos últimos dias as manchetes traziam ao conhecimento público uma notícia terrível: “menina de 10 anos vítima de estupro está grávida do próprio tio”. Não demorou muito para que a hashtag “estuprada” subisse no twitter, a revolta e os debates se instaurassem entre o facebook e o instagram, mas o principal questionamento, entre os comentários de repulsa e tristeza diante dessa tragédia, era apenas um: “e agora, ela vai abortar?”.


Foi neste momento que as opiniões se dividiram e assim se iniciou um debate ainda mais profundo sobre saúde pública e justiça. De um lado a luta para que ela pudesse ter o direito garantido de interromper essa gravidez e de outro, de forma até mesmo irresponsável, para que ela mantivesse custe o que custar. Acontece que em meio a isso tudo lá estava uma menina de 10 anos que não entende nada desses embates, mas sentia dores abdominais e só queria ter uma vida normal como alguém de sua idade. Até então, sua infância havia sido roubada e violada por uma falha do estado e de todos nós.


Infelizmente a história dela não é um caso isolado. De acordo com o Ministério Público, o Brasil registrou ao menos 32 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes em 2018, o maior índice já registrado até então. Esses números equivalem a três casos por hora e não param de crescer, já somam um total de 177,3 mil notificações.


Acontece o tempo todo, a todo momento e dentro do próprio lar. Sempre falamos por aqui dessa relação com o lar. Novamente, nem sempre e infelizmente, é o lugar mais seguro para estar. Deveria? Deveria, mas não é. Ao longo desses 20 anos de experiência e histórias que cruzamos dentro das casas protetivas, inúmeras mulheres foram vítimas de abusos sexuais terríveis enquanto crianças. Algumas chegavam com suas mães, tias ou avós, justamente para que fossem protegidas e permanecessem em segurança em um lar provisório.


A violência contra a mulher começa na infância, quando ela tem seu corpo violado e sexualizado. Quando ela não possui rede de apoio e simplesmente não é assistida por ninguém. Acredito que trazer esse assunto ao debate é de extrema importância, mas confesso que me preocupo com a exposição dessa criança. Até onde isso é saudável?


Lembro-me de um caso, cujo pude ler as inúmeras e terríveis laudas do processo, em que uma criança de apenas 11 anos foi estuprada e viveu em cárcere privado por muito tempo. Ela sofreu múltiplas violações. Finalmente quando foi livre - já adulta - e chegou à instituição, muitas dúvidas rondavam a equipe técnica que a acompanhavam. “Deixamos o caso se tornar público para que as pessoas possam tomar conhecimento e ele seja penalizado ou preservamos em confidencialidade este caso?” Antes de uma resposta que pudesse mudar o curso de todo o desfecho da história, a vítima, pessoa mais importante dentro deste enredo, foi consultada e optou por não ter a vida presente e, principalmente, seu passado exposto para o mundo. E assim foi feito.


A mídia nunca teve acesso a essa história de incesto e violência, apesar da equipe não ter conseguido protege-la da revitimização em ter que relatar a história inúmeras vezes no processo. Ao contrário da menina de 10 anos que, infelizmente, não teve o direito de escolha ao ter seus dados e sua vida assistida em todo o país.


Olhando para trás, podemos ver que a escolha da menina-mulher, que fora acolhida por nós, de manter tudo em sigilo foi uma decisão assertiva, apesar de ter tido consequências quanto à impunidade do abusador pela falta de voz e força no processo que a mídia e opinião pública é capaz de fazer.


Mas, afinal, a vida, proteção, segurança e liberdade da vítima é que são realmente importantes. E aquém de todos esses debates, é exatamente a proteção e acolhimento que desejamos para essa criança e todas as outras meninas que sofrem diversos abusos e continuam sendo invisíveis.


Meninas protegidas se tornam mulheres livres. Que ela possa crescer forte e livre, sabendo que pode voar muito alto, mesmo que tenham tentado cortar suas asas tão cedo.


Voa, menina!

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