O terror da denúncia para as mulheres


Na última semana, a Revista Piauí publicou uma reportagem extensa com 43 relatos que denunciavam o comportamento assediador e abusivo do humorista Marcius Melhem.

Mas, antes da entrevista, a atriz Dani Calabresa, já havia feito um desabafo nas redes sociais sobre o que aguentou todos estes anos ao lado do humorista. Apesar de ter tido o apoio de muitas personalidades públicas e mulheres do país todo, imagino que ela deva ter pensado, se encorajado e desistido umas tantas vezes antes de partir para a ação de expor toda a sua história.

Fato é que, para a mulher, a denúncia nunca foi tão simples quanto parece. Me deparei com um tweet que me fez refletir sobre isso e dizia assim “mulher tem que parar com esse mimimi de que é difícil denunciar assédio. É só enfrentar colegas te desacreditando, dar um depoimento de 1h para um líder, mais 3h para outro, mais 5h pro RH, tomar ansiolíticos, ser chamada de maluca e te recomendarem terapia. Qual a dificuldade? @rapha_prado”

Infelizmente tudo o que ele citou é verdade. Não só a denúncia por assédio, mas por violências em sua maioria, como o estupro.

Temos o caso recente da jovem Mari Ferrer que, nas últimas semanas, deixou a todos muito indignados após ter acesso aos vídeos em que ela é pressionada por 4 homens em uma audiência e questionada de maneira anti-profissional sobre sua postura, suas roupas e sua índole. Culpabilizando-a antes da sentença final.

Em ambientes onde nós, mulheres, achamos que seremos acolhidas, desconfiam de nós de maneira brutal. Nos fazendo recuar, até calarem nossa voz. Requer muita coragem e apoio psicológico para a denúncia de uma violência, seja ela qual for, mas ainda assim é o melhor caminho. Só dessa forma conseguiremos expor a verdade e unir as vozes até que sejam plenamente ouvidas. Se calar é o que querem, façamos o oposto, nademos contra a corrente e enfrentemos o monstro.

Tenho certeza que cada mulher possui uma história de constrangimento e tristeza com a denúncia de um abuso/assédio. No meu caso, eu tinha apenas 12 anos. Estava na escola e percebia que o professor de história me olhava diferente. Nunca esqueci daqueles olhares. Com o tempo, os olhares se transformaram em comentários nada agradáveis.


Em um dia de aula normal, ele estava em sua mesa, rodeado com os meninos da sala e comentou sobre eu ser uma “loira muito bonita”, seguido de algumas piadinhas e risadas que se referiam ao meu corpo. Me senti tão constrangida que decidi contar à minha melhor amiga e ela me encorajou a ir até a diretoria relatar.

Foi o que fiz. De braços dados, fomos até a diretora e contamos tudo. Ufa, que alívio! Coloquei pra fora todo aquele sentimento de constrangimento que aguentava há tempos daqueles olhares e comentários inadequados. O desfecho perfeito seria a diretora abordá-lo, questiona-lo e proteger minha imagem para que eu não sofresse nenhum tipo de retaliação, mas infelizmente não foi o que aconteceu.

Não sei o que ela disse exatamente a ele, mas sei que precisei lidar com seus comentários maldosos, seu deboche e seu ódio sobre mim até que o ano letivo acabasse. Ele me tratava mal e me prejudicava nas aulas. Nada aconteceu, mas eu passei de vítima a culpada - sem ter feito nada. Me culpava por ter contado pra ela, questionava se não fui exagerada e me senti desamparada porque não acreditaram em mim. Cogitei até mesmo pedir desculpas ao professor por aquela situação. Invalidei aquele episódio e segui a vida até que sumisse das minhas memórias.


Exatamente isso que não deve acontecer. Por isso precisamos falar, gritar, orientar, acolher e debater sobre isso. Assédio sexual é crime.


Formas comuns de assédio:

  • Ofensas, dizeres ou gestos ofensivos/inapropriados;

  • Tocar, apalpar, segurar, forçar beijo, segurar o braço, impedir a saída;

  • Colocar mão por dentro da roupa da vítima sem consentimento, iniciar ou consumar ato sexual sem consentimento. Embora seja comumente considerado como assédio, esse tipo de ato caracteriza o crime de estupro. Desde a reforma do Código Penal nesse crime, realizada em 2009, também se caracterizam como estupro outros atos libidinosos — ou seja, o crime de estupro pode ser configurado mesmo sem penetração.

Caso isso aconteça, não se cale. Conte a alguém que confia e peça ajuda. Registre um boletim de ocorrência na delegacia mais próxima ou faça uma denúncia pelo 190 (Polícia Militar) ou 180 (Disque-Mulher).


Sou grata a Dani Calabresa, Mari Ferrer e quem mais teve e tem coragem de expor a dor para buscar justiça. Quanto mais alto falarmos, as meninas do futuro poderão ter sua voz ouvida sem questionamentos.

Crimes contra a mulher acontecem todos os dias e precisamos parar de normalizar isso.

Juntas somos mais fortes! <3

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